Criada em 28/08/2020 às 10h51 | Pesquisa

Impactos de tecnologias da informação e comunicação no agronegócio são avaliados por nova metodologia

Iniciativa é importante para avaliar tecnologias da agricultura 4.0. Ferramenta mensura impactos de inovações baseadas em tecnologias da informação e comunicação (TICs). Avalia de forma abrangente impactos ambientais, econômicos e sociais de cada solução tecnológica.

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Com a agricultura 4.0 no centro das atenções, produtos que empregam TICs estão cada vez mais presentes nos projetos e entregas da Embrapa (foto: Embrapa/Divulgação)

Vivian Chies
DE CAMPINAS (SP)

A Embrapa desenvolveu um método para mensurar o impacto de inovações baseadas em tecnologias da informação e comunicação (TICs) voltadas ao segmento rural. O conjunto de critérios e indicadores abrange as dimensões ambiental, econômica e social dos efeitos do uso de sistemas de inteligência territorial, zoneamentos, bancos de dados, softwares e aplicativos, entre outros. Com a agricultura 4.0 no centro das atenções, produtos como esses, que empregam TICs, estão cada vez mais presentes nos projetos e entregas da Empresa. 

A nova metodologia recebeu o nome de “Ambitec-TICs: Avaliação de impactos de tecnologias de informação e comunicação aplicadas à agropecuária”. Consiste em um conjunto de 12 critérios, com 65 indicadores de desempenho. Eles são apresentados a usuários adotantes das soluções da Embrapa, que avaliam diversos quesitos: como ficou a geração de resíduos após a implementação da solução tecnológica? E o consumo de combustíveis? A conservação dos recursos hídricos? Só para mensurar impactos na dimensão ambiental são mais 20 questões como essas. O usuário responde se após a adoção da tecnologia a situação se manteve, se houve ganho ou perda, grande ou moderada.

O mesmo procedimento é aplicado aos indicadores econômicos: como ficou a produtividade/rentabilidade do trabalho? Houve valorização patrimonial? O novo recurso é compatível com sistemas pré-existentes? Melhorou o acesso a crédito? Houve impacto na comercialização? Por fim, os indicadores sociais: a tecnologia promove a segurança alimentar? Favorece a formalização de empregos? Subsidia a geração de programas, ações ou políticas públicas?

Cada resposta a um indicador gera uma pontuação, que vai de -3 a +3. Para se chegar aos índices de desempenho por critério (ambiental, econômico e social) e, por fim, a um índice integrado, ainda se considera a escala de ocorrência do indicador. Quanto mais pessoas ou instituições ele afeta, maior o peso. Dentro de um mesmo critério, os indicadores podem ter escalas de ocorrência diferentes. Elas também podem variar, de acordo com o usuário. O pesquisador Geraldo Stachetti, da Embrapa Meio Ambiente (SP), dá o exemplo de um repositório de publicações científicas. Utilizado tanto por bibliotecários quanto por estudantes e pesquisadores, ele não impacta da mesma forma todos eles.

Na Embrapa Territorial (SP), a avaliação de impacto de um sistema com informações geográficas sobre programas sociais mostrou que, embora tenha sido solicitado para atender ao trabalho de uma secretaria específica do Governo Federal, acabou gerando interesse também de outros usuários. “A sociedade descobriu e tem utilizado com muita intensidade aquele ambiente”, conta a analista Daniela Maciel, da área de Transferência de Tecnologia.

MONITORANDO O LUCRO SOCIAL

Os centros de pesquisa da instituição submetem anualmente à avaliação de impactos as soluções tecnológicas que desenvolvem. Stachetti diz que esse é um processo sedimentado na Empresa, com o objetivo de prestar contas à sociedade dos investimentos que recebe. A analista Graciela Vedovoto, da Secretaria de Desenvolvimento Institucional da Embrapa, complementa que avaliações permitem aferir o “ganho em termos de renda que os adotantes das tecnologias obtêm anualmente. É o que chamamos de lucro social, ou seja, o que a sociedade incorpora com a pesquisa gerada”.

Na Embrapa Territorial, a necessidade de critérios e indicadores melhor adaptados para fazer essa avaliação das soluções que entrega começou a ser mais sentida em 2018. Naquele centro de pesquisa são desenvolvidos principalmente sistemas de inteligência, gestão e monitoramento da agropecuária, baseados em dados e geotecnologias. Maciel explica que a primeira diferença entre esses produtos e outros desenvolvidos pela Empresa é a necessidade de avaliação rápida, já a partir da entrega. “O que colocamos no mercado é dado e informação, e esse tipo de ativo sofre atualização frequente”, analisa. Além disso, as soluções baseadas em TICs são utilizadas com mais frequência por associações, cooperativas e órgãos de governo do que diretamente pelos produtores rurais.

TRABALHO CONTÍNUO

Atualizar continuamente o conjunto de critérios é uma preocupação da equipe que trabalhou na definição do Ambitec-TICs. Ela segue atuando e compartilhando suas impressões ao utilizar o método, no intuito de reunir subsídios para revisá-los. Stachetti esclarece que todos os processos de avaliação precisam ter os critérios de avaliação e premissas ajustados, caso mudem os objetivos. “Isso é especialmente verdadeiro para avaliações de impactos, nas quais objetivos institucionais, sociais e ambientais são constantemente renovados e atualizados. Para o caso específico das TICs isso deve ser ainda mais enfatizado, já que as próprias tecnologias, seus alcances, plataformas e usuários estão em pleno desenvolvimento,” declara.

PARTICIPAÇÃO DE SEIS CENTROS DE PESQUISA

A busca por uma metodologia mais adequada a soluções baseadas em TICs reuniu uma equipe multidisciplinar de seis unidades da Embrapa: Informática Agropecuária (SP), Instrumentação (SP), Meio Ambiente (SP), Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) e Solos (RJ), além da Embrapa Territorial. Sem encontrar no mercado um método dedicado a TICs na agricultura, o grupo decidiu criar um próprio, adaptando um sistema de critérios e indicadores já amplamente adotado pela instituição, o Ambitec-Agro.

Também desenvolvido pela Embrapa, no início dos anos 2000, é utilizado desde então para avaliar as tecnologias, produtos, processos e serviços disponibilizados pela Empresa à sociedade. A avaliação é fonte de subsídios para o Balanço Social da Empresa que, em sua 23ª edição, contabilizou R$ 46,49 bilhões em retorno à sociedade, equivalente a R$ 12,29 de retorno para cada real investido, em 2019.

A metodologia Ambitec-Agro é utilizada também por outras instituições, a exemplo do Instituto Agronômico (IAC), do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Fora do Brasil, institutos de pesquisa agropecuária da América do Sul, como a AgroSavia, da Colômbia, empregam critérios e indicadores do método brasileiro em suas avaliações. Há ainda histórico de adaptação da estrutura para uso em políticas públicas, como o programa de pagamento de serviços ambientais Proambiente e o Programa de Produção Sustentável de Óleo de Palma. “É natural que, ao longo de quase duas décadas desde sua primeira versão, e devido à sua concepção muito flexível em relação à estrutura de critérios e indicadores, o Ambitec-Agro tenha se mostrado aplicável a uma ampla variedade de estudos, seja na Embrapa, seja de parceiros institucionais e usuários externos”, analisa Stachetti, responsável pela metodologia. Além das TICs, há um módulo do método dedicado à agroenergia.

TICS VIERAM PARA FICAR E TRANSFORMAR A AGRICULTURA

No documento Visão 2030, sobre o futuro da agricultura brasileira, a Embrapa prevê que “a inteligência artificial estará presente em quase todas as fases da produção agrícola”. Tendências, nichos de mercado e demandas das cadeias produtivas serão cada vez mais identificados por meio de algoritmos. “Haverá a necessidade de maior compartilhamento de conhecimento entre os atores das cadeias produtivas e das plataformas de dados abertos, com consequente intensificação do uso de arquiteturas big data e de ferramentas de mineração de dados”, antevê a publicação.

O secretário de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Bruno Brasil, lembra que a agricultura 4.0, da qual fazem parte as tecnologias digitais, “é o que mais tem transformado o agro na última década”. Há cinco anos, softwares e aplicativos eram apenas 1% das entregas previstas nos projetos de pesquisa da Empresa; atualmente, já estão na casa dos 5%.

A tendência é o desenvolvimento desse tipo de ativo crescer, aponta Brasil. As tecnologias digitais estão presentes nos 33 portfólios da Embrapa, (grupos temáticos nos quais são organizados os projetos de pesquisa), e se encontram com mais força em dois: o de Automação, Agricultura de Precisão e Digital e o de Inteligência, Gestão e Monitoramento Territorial.

A carteira de soluções tecnológicas já disponíveis da Embrapa tem 292 softwares e serviços web, 119 deles já em uso ou aptos a serem transferidos para o setor produtivo. A maior parte (65%) está disponível gratuitamente. Em 2019, 63 ativos digitais foram adicionados ao portfólio de produtos da Empresa. Até maio de 2020, mais 53 já haviam sido entregues. (Da Embrapa Territorial)

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