Criada em 10/03/2020 às 17h45 | Agricultura

Agricultores familiares conseguem melhorar renda com plantio consorciado de seringueiras

As árvores de seringueira são plantadas com uma distância de três metros e, nas entrelinhas, são inseridas as espécies escolhidas. Entre as anuais, o milho e o feijão-caupi se destacaram pela boa produtividade, com média de 30,1 mil espigas e 2.080 kg por hectare, respectivamente.

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As culturas foram escolhidas porque mantêm bom desenvolvimento mesmo com o sombreamento das seringueiras e também podem continuar dando frutos depois do início da extração de látex (Foto: Inocêncio Júnior de Oliveira/Embrapa/Divulgação)



 

Fernando Goss
DE MANAUS (AM)

Pesquisas realizadas pela Embrapa Amazônia Ocidental (AM) mostram que plantio de seringueiras consorciadas com outras espécies de interesse econômico é uma alternativa rentável para agricultores familiares amazonenses. Experimentos desenvolvidos com culturas anuais e perenes apontaram as espécies com maior potencial de geração de renda enquanto o produtor espera o tempo necessário à extração comercial de látex, que pode levar de seis a sete anos. Entre as anuais, o milho e o feijão-caupi (feijão-de-corda) se destacaram pela boa produtividade, com uma média de 30,1 mil espigas e 2.080 kg por hectare, respectivamente.

Segundo o pesquisador da Embrapa Everton Cordeiro, a proposta visa também atender à necessidade do Amazonas “O estado necessitava da retomada de uma cadeia fundamental para sua economia, a da heveicultura, que se reduziu muito, principalmente em decorrência do mal-das-folhas que dizimou os plantios comerciais de seringueira no século passado”, conta o cientista. As pesquisas estão sendo realizadas por meio de um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Os experimentos com cinco espécies perenes - cacau, guaraná, tucumã, banana e gliricídia – foram conduzidos nos campos experimentais da Embrapa em Manaus, Iranduba (Caldeirão) e Maués, além de uma unidade em área da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). As árvores de seringueira são plantadas com uma distância de três metros e, nas entrelinhas, são inseridas as espécies escolhidas. De acordo com Cordeiro, essas culturas foram escolhidas porque mantêm bom desenvolvimento mesmo com o sombreamento das seringueiras e também podem continuar dando frutos depois do início da extração de látex.

TRÊS SAFRAS ANUAIS NAS ENTRELINHAS

Já em relação às espécies anuais, são feitas avaliações com milho-verde e feijão-caupi plantados nas entrelinhas das seringueiras. Segundo o pesquisador da Embrapa Inocêncio Júnior de Oliveira, em decorrência das condições climáticas locais, é possível ao produtor obter três safras por ano agrícola nessas entrelinhas. O milho e o feijão-caupi foram cultivados em dois locais (campos experimentais de Manaus e do Caldeirão). “Em uma safra agrícola foi possível realizar dois cultivos de milho-verde e um de feijão-caupi, sendo o primeiro de milho semeado no final de novembro (seis linhas de milho entre duas linhas de seringueira), o segundo, no início de março e o do feijão-caupi (nove linhas entre duas linhas de seringueira) em junho,” explica.

Foram realizadas análise do solo, calagem, adubação de plantio e de cobertura e controle de plantas daninhas e pragas. Como resultado, registrou-se uma média de 30,1 mil espigas de milho-verde por hectare, com padrão comercial (comprimento da espiga sem palha maior de 15 cm e diâmetro da espiga sem palha maior que 3,5 cm).

Do feijão-caupi, foi colhida uma média de 2.080 kg por hectare. Para Oliveira, a produtividade média é boa e pode garantir uma renda considerável ao produtor até que se comece a extrair o látex. “O agricultor pode cultivar essas espécies anuais por quatro ou cinco anos, até que o sombreamento das seringueiras impeça um bom desenvolvimento dessas plantas”, complementa.

SOMBRA E SOLO FRESCO

Outra vantagem de adotar esse tipo de sistema é a proteção do solo, por meio do aumento do sombreamento que promove a diminuição da sua temperatura. “Além disso, com proteção é possível reduzir a taxa de mineralização da matéria orgânica, com consequente melhoria da estrutura do solo”, explica Oliveira.

Após as colheitas realizadas em 2019 e 2020, serão realizadas avaliações econômicas do sistema, com o objetivo de repassar aos produtores o quanto é necessário desembolsar e o resultado da comercialização ao adotar esse tipo de consorciação.

Nos experimentos, são utilizadas seringueiras desenvolvidas pela Embrapa Amazônia Ocidental desde 1999, obtidas de cruzamentos entre espécies diferentes que dão resistência aos danos causados pelo mal-das-folhas (veja quadro abaixo). Segundo Cordeiro, esses materiais possuem uma grande produtividade e podem chegar a uma produção entre 1,5 mil e dois mil quilos anuais de látex por hectare.

“Os resultados desses trabalhos podem contribuir com a retomada da heveicultura no Amazonas”, acredita o pesquisador. “Disponibilizamos cultivares de seringueiras resistentes ao mal-das-folhas, selecionadas a partir dos melhores materiais genéticos, ao pequeno produtor e à agroindústria e oferecendo o suporte necessário ao seu desenvolvimento no estado”, relata.

SERINGUEIRAS RESISTENTES AO MAL-DAS-FOLHAS

A produção de látex a partir de seringais cultivados foi praticamente inviabilizado no Amazonas em decorrência da doença chamada mal-das-folhas, que impossibilitou a expansão de plantios comerciais na região da floresta tropical úmida.

Causada pelo fungo Microcyclus ulei, a doença dizimou lavouras de seringueira na Amazônia. Cordeiro conta que, atualmente, a produção de látex se dá praticamente por meio do extrativismo, a coleta em árvores na natureza. “Na floresta, as seringueira nativas estão distantes umas das outras e conseguem conviver com o fungo. Nos plantios, as árvores ficam mais próximas e a doença causa a morte da planta”, detalha. Desde a década de 20 do século passado, o fungo passou a ser o agente limitador da cultura e o principal responsável para que a atividade não continuasse seu desenvolvimento na região.

Para solucionar o problema, há cerca de quatro décadas, pesquisadores da Embrapa desenvolvem um programa de melhoramento genético de seringueiras com alta produtividade e resistência ao fungo. O resultado foi a disponibilização da seringueira tricomposta, formada a partir de cruzamentos entre espécies diferentes e com seleção dos melhores clones para formar árvores resistentes à doença, por meio de enxertos.

O nome "tricomposta" deve-se ao fato de que três partes da árvore (a base, o tronco e a copa) são formadas a partir de outras plantas de seringueira, combinadas por meio de enxertias. Para formar o porta-enxerto, base da árvore, são utilizadas sementes selecionadas de Hevea brasiliensis. O tronco, chamado de ‘painel', vem da enxertia de um clone de outra variedade dessa mesma espécie, bastante produtiva em látex. Por fim, a copa é oriunda de clone resistente ao mal-das-folhas, resultado de cruzamentos entre as espécies Hevea guianensis, Hevea pauciflora e Hevea rigidifolia.

Ao todo, são necessários 25 meses para formar a muda de tricomposta, desde a semente até a fase de plantio. Durante esse tempo, são feitas as duas primeiras enxertias, além do manejo necessário para o desenvolvimento da planta. A terceira enxertia, da copa, é realizada com a muda já plantada na área de cultivo. “Mesmo com um ano a mais para produção dessa muda e custo maior, ela dá o retorno econômico ao longo do tempo porque produz mais cedo e com qualidade", pontua o pesquisador. Ele explica que a tricomposta começa a produzir látex a partir de seis anos, um ano mais cedo que as seringueiras convencionais. A produção se estabiliza entre nove e dez anos e o plantio bem manejado pode ser explorado por 30 a 35 anos. (Da Embrapa Amazônia Ocidental)

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