Criada em 27/08/2020 às 15h55 | Pesquisa

Com uso de inseticida e fungicidas, cientistas usam organismos aquáticos para estabelecer níveis seguros de agroquímicos

Pesquisa usou uma espécie de microalga, duas de microcrustáceos, uma de inseto e uma de peixe. Sensíveis aos efeitos dos químicos, esses organismos ajudam a estabelecer níveis seguros desses compostos para o ambiente e para a saúde humana.

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Obter dados por meio de testes de toxicidade em organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar permite avaliar os possíveis efeitos de novos agroquímicos (Foto: iStock/Embrapa)

Cristina Tordin
DE JAGUARIÚNA (SP)

Pesquisa realizada na Embrapa Meio Ambiente (SP) utilizou organismos aquáticos para determinar níveis de segurança para a concentração na água de defensivos químicos utilizados na lavoura. Foram analisados níveis de toxidade para o inseticida diflubenzuron, para os fungicidas piraclostrobin e epoxiconazole e para a mistura dos dois últimos. Os três são insumos usados na agricultura e o diflubenzuron chegou a ser empregado também na piscicultura, apesar de sua aplicação não ser permitida nessa atividade.

“As espécies analisadas foram uma microalga, dois microcrustáceos, um inseto aquático e uma espécie de peixe, no caso do diflubenzuron. No caso dos fungicidas, uma microalga, um microcrustáceo e um peixe,” conta o pesquisador da Embrapa Claudio Jonsson. Ele ressalta que a utilização dessas espécies como bioindicadores traz vantagens. Por serem relativamente fáceis de cultivar e manter em laboratório, elas apresentam boa disponibilidade e menor custo.

O cientista explica que essas espécies são mais sensíveis aos efeitos da toxidade dos produtos e permitem uma avaliação relativamente rápida dos efeitos desses agentes e a estimativa dos impactos causados sobre outros organismos.

“Uma molécula pode ser extremamente tóxica para um organismo, mas não para outro. Os herbicidas, por exemplo, em sua maioria são altamente tóxicos para algas e plantas aquáticas, mas não tanto para vertebrados e invertebrados,” relata Jonsson, frisando que o emprego dessas espécies consegue estimar níveis seguros para diferentes organismos e também para a saúde humana.

“São usados parâmetros obtidos de ensaios de bioconcentração em tecidos como ferramenta para determinar limites de concentração para avaliar o risco associado ao consumo humano de fontes proteicas de origem aquática que possam conter esses contaminantes”, detalha, referindo-se especialmente ao consumo de peixes.

O pesquisador conta que órgãos internacionais recomendam o uso de organismos bioindicadores que sejam de cultivo e manutenção relativamente fáceis e que pertençam a diferentes níveis tróficos. Esses indicadores biológicos também fornecem a base para o desenho dos testes de toxicidade crônica, importantes para estimar os efeitos de quantidades residuais dos agentes por um período prolongado.

Para Jonsson, a obtenção de dados por meio de diversos testes de toxicidade em organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar é importante para avaliar também os possíveis efeitos de novos agroquímicos lançados no mercado.

A PESQUISA

A partir de dados de toxicidade do diflubenzuron em organismos não alvo, foi calculada a concentração de risco para 5% das espécies. O baixo valor dessa concentração (7,3 x 10-6 mg/L) é devido à elevada toxicidade do diflubenzuron para dafnídeos (crustáceo de água doce) e à grande variação de sensibilidade entre as espécies testadas.

Em um projeto coordenado pela pesquisadora Vera-Lucia Castro, do Laboratório de Ecotoxicologia e Biossegurança da Embrapa Meio Ambiente, foi avaliada a toxicidade dos fungicidas piraclostrobin, epoxiconazole e da mistura de ambos sobre três organismos de diferentes níveis tróficos do sistema aquático. Com base no efeito da espécie mais sensível e aplicando fatores de segurança, conseguiu-se estimar concentrações protetivas para a biota desse sistema para os compostos testados, respectivamente.

A pesquisadora Mariana Moura e Silva, do Laboratório de Ecossistemas Aquáticos da Embrapa Meio Ambiente, explica que os testes com organismos aquáticos, além de servir para delimitar níveis máximos permissíveis nos ecossistemas aquáticos, podem servir também para avaliar a eficiência de remoção de um contaminante.

“Por exemplo, se passamos um efluente tóxico por meio de um sistema de filtragem (como materiais relativamente de baixo custo como a brita e argila expandida), podemos avaliar a toxicidade na ausência do material filtrante e na presença dele. Assim, é possível calcular a percentagem de diminuição da toxicidade associada à remoção do agente tóxico”, detalha.

A toxicidade de um efluente contendo diflubenzuron sobre um invertebrado aquático (Artemia salina, crustáceo, imagem à direita) foi avaliada para estudar a eficiência de sua remoção por meio de sistemas de adsorção contendo brita e argila expandida. Foi demostrado que houve uma diminuição de 31% e 51%, respectivamente, nesses substratos, da toxicidade do efluente.

Os resultados obtidos com o uso desses bioindicadores podem contribuir para políticas públicas no Brasil relacionadas ao estabelecimento de limites máximos permissíveis de xenobióticos (compostos estranhos) no compartimento aquático. Eles também vão auxiliar em pesquisas de matérias inertes e de baixo custo capazes de remover xenobióticos presentes em efluentes da aquicultura ou da agricultura.

Contudo, as agências reguladoras consideram a toxicidade sobre organismos não alvo de maneira individualizada, desconsiderando que no ambiente natural a toxicidade ocorre por meio da mistura de diversos contaminantes que atuar em conjunto, inclusive por meio de interações sinérgicas.

Por isso, os pesquisadores acreditam que os resultados obtidos com o uso de misturas também podem ser úteis no planejamento de estudos de longo prazo para a comparação de toxicidade entre agroquímicos, além do fornecimento de dados sobre interações de poluentes em organismos não alvo. (Da Embrapa Meio Ambiente)

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