Criada em 21/11/2019 às 16h47 | Mercado

Com características que agradam produtor e mercado, cultivar de açaizeiro vai manter fornecimento do fruto o ano todo

Pesquisa começou há cerca de 20 anos. A produção na entressafra é um dos diferenciais. Outra característica importante que a pesquisa buscou foi o tamanho do fruto. Isso porque o mercado de processamento do açaí no estado já sinalizava que frutos menores rendem mais.

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Nova cultivar de açaizeiro vai manter fornecimento do fruto o ano todo (Foto: Vinícius Braga/Embrapa)

Ana Laura Lima
DE BELÉM (PA)

Produção de açaí o ano todo para o estado do Pará e para o Brasil é a proposta da nova cultivar de açaizeiro (Euterpe oleracea) irrigado de terra-firme da Embrapa, a BRS Pai d’Égua. A variedade atende às principais demandas da cadeia produtiva do açaí: a produção na entressafra e frutos menores, que facilitam o processamento e rendem mais, características que agradam ao produtor e ao mercado.

Dois eventos marcam o lançamento da BRS Pai d'Égua: 29/11, na sede da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém; e 03/12, no campo experimental da Unidade, em Tomé-Açu, na região Nordeste Paraense.

Um dos maiores diferenciais da nova cultivar é a distribuição bem equilibrada da produção anual. A BRS Pai d’Égua produz 46% no período da entressafra (de janeiro a junho) e 54% na safra (de julho a dezembro). Trata-se de uma forte vantagem para o produtor, pois a redução da oferta de açaí na entressafra faz o seu preço aumentar, além de provocar demanda reprimida nesse período.

Outro ponto forte desse açaizeiro é a maior produtividade, chegando a 12 toneladas ao ano por hectare, enquanto o açaí manejado de várzea e o cultivado em terra-firme sem irrigação produzem cerca de cinco toneladas anuais por hectare. Além de tudo isso, seus frutos menores rendem 30% mais polpa que os materiais tradicionais. Destaca-se também a produção precoce. A primeira colheita se dá aos três anos e meio, enquanto os materiais tradicionais iniciam no quinto ano. Portanto, ele traz retorno financeiro mais rápido ao agricultor.

MERCADO BILIONÁRIO

O estado do Pará produziu em 2018, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,4 milhão de toneladas do fruto, em uma área de quase 200 mil hectares. Esse total envolve o manejo de áreas de várzea e os plantios de terra-firme. Somente na economia paraense, o produto movimentou cerca de três bilhões de reais em 2018.

“A demanda pelo fruto, que é rico em antocianinas e tem alto valor energético, é enorme e a produção precisa aumentar”, afirma João Tome de Farias Neto, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Segundo o Sindicado das Indústrias de Frutas e Derivados do Estado do Pará (Sindfrutas), o estado fica com cerca de 60% do açaí que produz. Trinta e cinco por cento vão para outras regiões do País, principalmente a Sudeste, e 5% vão para o exterior.

Os Estados Unidos são o principal destino internacional do fruto.

A CONQUISTA DO AÇAÍ DE TERRA-FIRME

Para ampliar a produção dessa palmeira nativa das áreas de várzea, a pesquisa vem trabalhando há mais de 20 anos. Além do manejo de açaizais nativos, estender a produção às áreas de terra-firme, segundo o pesquisador, foi a alternativa encontrada para aumentar o fornecimento desse fruto ao mercado. Em 2005, a Embrapa lançou a primeira cultivar de açaizeiro para terra-firme do mundo, a BRS Pará, responsável por ampliar o cultivo do açaizeiro no Pará e em outros estados brasileiros.

“Para a nova cultivar, a BRS Pai d’Égua, precisávamos ir além e resolver um dos principais gargalos dessa cadeia produtiva: a sazonalidade”, conta Farias. Cerca de 90% do açaí comercializado no Pará é produzido durante o período da safra, entre os meses de julho e dezembro.

PRODUÇÃO NA ENTRESSAFRA E FRUTOS MENORES

O cientista conta que a primeira etapa do desenvolvimento da cultivar, portanto, foi coletar material genético – sementes – em locais onde a produção das palmeiras concentrava-se em período diferente da maior parte do estado. Dois municípios, localizados no arquipélago do Marajó, se destacaram: Afuá e Chaves. “Nesses locais, principalmente em Afuá, a produção dos frutos está concentrada nos meses de janeiro a junho”, relata o cientista.

A hipótese do pesquisador é que a geografia do município favoreça a “safra diferente”. “Afuá é semelhante a uma bacia. Nos meses de chuva, janeiro, fevereiro e março, a bacia enche. Com a diminuição das chuvas, em maio, junho e julho, ela tende a esvaziar”, conta.
É a diminuição da água, o estresse hídrico, que induz o açaizeiro a florescer. “Isso é uma característica das espécies da nossa região”, complementa. Por causa disso, a partir de julho, agosto e setembro o açaizeiro lança suas flores. E o ciclo natural, segundo o especialista, é que após seis meses do período de inflorescência, comece o período de colheita dos frutos, coincidindo assim com a entressafra em todo o estado.

Outra característica importante que a pesquisa buscou foi o tamanho do fruto. Isso porque o mercado de processamento do açaí no estado já sinalizava que frutos menores rendem mais.

“É uma questão matemática. Se considerarmos uma lata que tem perto de 15kg de frutos pequenos, temos maior quantidade de frutos. De tal forma que se somarmos a área de processamento de cada fruto pequeno teremos maior quantidade de suco por unidade de comercialização”, frisa o especialista.

CINCO ANOS DE AVALIAÇÕES

As 80 plantas coletadas nos municípios de Afuá e Chaves, portanto, apresentavam essas duas características principais: produção na entressafra e frutos menores. O passo seguinte foi o estabelecimento de um plantio no campo experimental da Embrapa Amazônia Oriental em Tomé-Açu, no nordeste paraense.

No experimento, foram feitas cinco avaliações de safras com irrigação para que o local pudesse reproduzir o movimento hídrico da “bacia” do município de Afuá. Nesse período, o especialista avaliou a época de produção, o tamanho de frutos e a produtividade das palmeiras.

Farias explica ainda que duas seleções sucederam os cinco anos de avaliação das safras: na primeira, foram selecionadas 45 plantas; e na segunda, 18 indivíduos. “Eliminamos as plantas inferiores e deixamos as melhores. A partir do cruzamento delas, isso porque o açaizeiro é uma espécie alógama, na qual naturalmente os insetos fazem o cruzamento entre as plantas, obtivemos a nova cultivar”, explica.

APROVADA PELO MERCADO

Os resultados do trabalho surpreenderam não somente a equipe de pesquisa, mas também o mercado. Márcio Coelho da Veiga tem uma unidade de processamento de açaí no município de Tomé-Açu. Ele trabalha como “batedor” de açaí desde 2001, ofício que aprendeu com o pai, um dos pioneiros da região. O ponto de venda de açaí batido da família começou a funcionar em 1986.

Durante alguns anos, ele atuou como um consultor da pesquisa para avaliar o desempenho da BRS Pai d’Égua nas unidades de processamento da polpa. “O rendimento dessa variedade foi surpreendente. Uma caixa de 30 quilos do açaí comum rendia em média de dez a 12 litros de polpa. Com esse açaí a gente chegou a 15 litros”, relata o comerciante.
Mas não foi somente o rendimento de polpa que chamou a atenção de Veiga. A consistência, a cor e o sabor também impressionaram. “Qualquer batedor percebe imediatamente que a polpa desse açaí é mais espessa e cremosa”, frisa.

Oferecer um açaí de qualidade na entressafra, na opinião do comerciante, está entre as principais vantagens da nova cultivar. “É na entressafra que tanto os produtores quanto os processadores conseguem lucrar com a atividade”, afirma. Na região de Tomé-Açu, ele conta que uma caixa de 30 quilos de frutos custa 50 reais na safra. Na entressafra, a mesma caixa chega a 115 reais.

Nazareno Alves trabalha com o processamento de açaí, em Belém (PA), há 14 anos. Atualmente tem uma cadeia de restaurantes na qual comercializa o produto e também planta açaí irrigado em terra-firme no município de Igarapé-Açu, no nordeste do Pará. Mais do que um comerciante e produtor, Nazareno é um entusiasta do açaí. “Eu vendo açaí e sou apaixonado por esse fruto, consumo todos os dias”, conta.

Ele diz que a qualidade do açaí da entressafra é muito inferior, isso por causa do transporte do fruto, que vem de áreas mais distantes, como os municípios de Afuá e Chaves.

O empresário também experimentou a BRS Pai d’Égua no seu restaurante e ficou entusiasmado com o resultado. “Esse açaí da Embrapa tem excelente qualidade, polpa mais densa, cor e sabor. O cliente que está acostumado a beber o açaí percebe imediatamente a diferença”, relata.

CUSTO DE PRODUÇÃO

O custo total de implantação de um hectare de açaizeiro irrigado em terra-firme, considerando a estrutura de viveiros, maquinário, encargos sociais, sistema de irrigação, operações mecanizadas e manuais, sementes, entre outros itens, está em torno de 11 mil reais. Esse cálculo, segundo o pesquisador da Embrapa Alfredo Homma, se baseia em um plantio de 16 hectares localizado no município de Igarapé-Açu. O espaçamento adotado foi de 5m x 5m, totalizando 400 touceiras, com três a quatro estipes por touceira.

Nos materiais tradicionalmente utilizados no campo, a colheita comercial se inicia a partir do quinto ano, mas é somente a partir do nono ano de cultivo que o produtor começa a obter lucro com a atividade. “Nesse ponto, ele pagou os custos iniciais de implantação e manutenção do cultivo e o custo do capital até aquele período”, explica o pesquisador. Como a BRS Pai d’Égua inicia a frutificação aos três anos e meio, a estimativa é que esse retorno financeiro seja antecipado ao produtor.

“Pelo alto investimento inicial, o açaizeiro irrigado é recomendado para médios e grandes produtores”, explica. Mas ele não descarta, contudo, o plantio irrigado para pequenos produtores que podem improvisar sistemas de irrigação com menores custos, aproveitando margens de igarapés, cursos de água ou de açudes, entre outros.

A REVANCHE DO AÇAÍ

“Chegou ao Pará, parou. Tomou açaí, ficou”, diz um ditado regional. Mas nem sempre foi assim. Segundo o antropólogo Romero Ximenes Ponte, professor da Universidade Federal do Pará, durante o século 19, quando a província do Grão-Pará foi anexada ao Brasil, o estigma dessa região era “chegou ao Pará, parou. Seja no hospital ou no cemitério. Era um lugar de pragas e endemias”, conta.

De acordo com o professor, a reação do nativo, que àquela época estava autoconstituindo a sua identidade, foi negar o lugar epidêmico e doentio. “Foi dizer que aqui não era o lugar da doença e sim o lugar da comida magnífica, que quem prova jamais esquece, fica fisgado”, conta.

Ximenes estuda a relação da alimentação com a identidade e a cultura amazônicas, e como ela se estabelece como elemento fundamental de ambas. Um dos principais objetos de seu trabalho é o açaí. “Ele é uma espécie de rizoma social, um elemento que conecta com todos os níveis da vida cotidiana. O açaí é desde aterro de rua a identidade; de alimento a combustível na casa de farinha; de adubo na agricultura até a cor do manto da Santa; cor de gente, morena açaí”, conta.

“Os registros sobre o açaí no começo do século 20 eram de uma comida detestável, comida de negros, de índios e periféricos. Era encontrado somente nos lugares mal frequentados da cidade”, relata o antropólogo. Hoje houve, portanto, a revanche do açaí. “Ele é um alimento de excelência do ponto de vista da medicina, da nutrição e um grande trunfo na economia. É o nosso produto com mais fácil trânsito no mercado internacional”, ressalta.

UM PRODUTO “PAI D’ÉGUA”!

Muito utilizada na Região Norte, especialmente no estado do Pará, a expressão “pai d’égua” refere-se a algo excelente, fantástico, muito bom. “O açaí por si só já é algo muito importante para o povo paraense, não somente por ser a base da alimentação, mas também por ser um dos principais produtos da economia do estado”, conta o agrônomo João Tome de Farias Neto, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

O especialista em Língua Portuguesa Roberto Fadel relata que não há registros sobre a origem etimológica dessa expressão, porém, sua origem cultural é a Ilha do Marajó.
Ele conta que, naquela região, os vaqueiros selecionavam os reprodutores mansos para gerarem éguas dóceis, mais apropriadas para o trabalho. “Esses reprodutores eram os ‘pais das éguas’, considerados dóceis, mansos e, consequentemente, geravam animais (éguas) com as mesmas características e apropriadas para o trabalho”, relata. “A expressão popularizou-se e tornou-se sinônimo de algo ou alguém muito bom, muito legal, excelente”, explica o especialista.

“O ‘pai d’égua’ é a nossa excelência”, declara o antropólogo Romero Ximenes, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ele considera muito positivo que a ciência seja sensível aos linguajares regionais. O nome do açaí Pai d’Égua é “uma homenagem à linguagem dos índios e caboclos da Amazônia”, considera o antropólogo. (Da Embrapa Amazônia Oriental)

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