Criada em 28/12/2021 às 09h54 | Pecuária

Margens devem continuar apertadas em 2022, aponta boletim CiCarne, feito pela Embrapa

O custo com animais de reposição também deverá impactar o custo final da terminação. Faltarão vacas para abate e abastecimento do mercado interno e as indústrias buscarão bois, que estarão com a demanda aquecida no mercado externo e com a arroba valorizada.

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Nesta última edição do ano do Boletim CiCarne, da Embrapa, os pesquisadores fazem uma breve retrospectiva de 2021 e avaliam importantes perspectivas para 2022, como custos e margens, consumo, ciclo pecuário e o cenário macroeconômico futuro para o setor.

Clique aqui e confira a íntegra do boletim CiCarne:

O ano de 2021 foi marcado por uma continuidade daquilo que se presenciou no ano anterior: houve falta de animais para abastecer o mercado doméstico, por sua vez, enfraquecido em virtude da crise econômica provocada pela pandemia. A principal causa da falta de animais foi o ciclo pecuário e a escassez de chuvas nos principais polos produtores do país.

O patamar elevado de preços da arroba do boi gordo manteve-se no primeiro semestre acima dos R$ 300,00. Os problemas para os produtores se agravaram em setembro, quando a China (que importou 50% de 1,27 milhão de toneladas exportadas pelo Brasil no período de janeiro a setembro) suspendeu as importações do Brasil depois de dois casos atípicos de encefalopatia espongiforme bovina (EBB), conhecida como a doença da vaca louca. Isso teve um impacto negativo significativo nas exportações brasileiras de carne bovina, nos últimos meses, (menos 43% no volume e 31% na receita), com alguns produtores operando em níveis bem abaixo da capacidade.

No acumulado do ano, até agora, as exportações brasileiras de carnes bovinas atingiram 1,6 milhão de toneladas, uma queda de 2,4% em relação ao acumulado no mesmo período do ano passado. Em receitas, porém, houve um crescimento no mesmo período de 16% pois o produto está mais caro no mercado global.

MACROECONOMIA EM 2022

As exportações de carne bovina brasileira devem crescer, com a Ásia continuando a ser o principal mercado, embora as exportações de carne bovina ainda tenham sofrido com a suspensão das importações pela China em razão dos casos atípicos de vaca louca, até semana passada. As exportações de carne bovina dos EUA, ganhando acesso à China proporcionarão competição adicional à carne bovina brasileira. Esperamos que a produção de suínos volte a cair em muitos mercados asiáticos, incluindo a China, em 2022, pelos preços descendentes e alto custo com insumos, desestimulando assim a produção. Tal evento criará oportunidades para as exportações brasileiras.

A China deve se manter como o principal parceiro comercial da cadeia produtiva da carne bovina brasileira. Para o câmbio, as expectativas em função das incertezas globais causadas pela COVID-19 são de preços firmes, com o mercado projetando o dólar em R$ 5,50 ao fim de 2022 e alta volatilidade. O avanço da vacinação e a retomada das economias globais, apesar da inflação mundial projetada, mantém uma perspectiva positiva para 2022, entretanto, a inflação e o desemprego deverão pressionar o consumo de carne bovina no Brasil, que representa 75% do total da produção total.

CONSUMO

A pandemia da COVID-19 provocou mudanças na mesa dos brasileiros, que reduziramm o consumo de carne bovina para o menor nível em 25 anos. Entretanto, esse consumo se fortalecerá num futuro próximo. Esperamos um crescimento constante à medida que a renda e as preferências alimentares se expandam. A tendência de premiumisation (percepção de mais saúde, qualidade e experiência) também será forte na carne bovina, gerando oportunidades para projetos de carne de qualidade e de marcas conceito.

OFERTA DE BEZERROS

Estamos num período de transição do ciclo pecuário. Entre o aumento do preço da arroba do boi gordo e o aumento da oferta de bezerros. Apesar das quedas consecutivas nos últimos meses, o preço do bezerro continua acima do valor médio nominal observado em 2020, o que levará à retenção de fêmeas, aumentando a produção de bezerros e, consequentemente, a disponibilidade de ofertas para os recriadores no médio prazo. Como o atual ciclo pecuário se iniciou em 2019, os custos de reposição devem começar a baixar somente em 2023, apesar do aumento da oferta destes animais em 2022.

CUSTOS E MARGENS

Seguiremos com aumentos nos preços dos insumos, dos animais de reposição e uma menor disponibilidade de animais. O produtor rural conviverá com o alto custo dos fertilizantes, o que impactará o custo de produção do milho e da soja, afetando o preço da ração para suplementação. Em 2021, houve um aumento de mais de 100% nos custos com fertilizantes e defensivos para culturas como milho e soja.

O custo com animais de reposição, em virtude da tendência de alta no ciclo pecuário, também deverá impactar o custo final da terminação. As margens devem continuar apertadas em 2022. Faltarão vacas para abate e abastecimento do mercado interno e as indústrias buscarão bois, que estarão com a demanda aquecida no mercado externo e com a arroba valorizada.

RISCOS PARA O FUTURO

No curto prazo, as questões sanitárias apresentam riscos negativos para o comércio. Surtos de febre aftosa ou vaca louca prejudicam as perspectivas de exportação do país. Outros casos de doença podem fazer com que a China mantenha a suspensão das importações de carne bovina do Brasil por mais tempo do que foi dessa vez.

Como já aconteceu em 2021, isso provavelmente pesaria negativamente na produção em 2022, a menos que destinos de exportação alternativos possam ser encontrados. A COVID-19 continua a representar riscos para os mercados doméstico e de exportação de carne bovina em 2022. As más condições climáticas podem atingir as regiões de cultivo de grãos, o que pode reduzir a produção de ração e, em última análise, resultar em custos mais elevados para os processadores de carne.

No longo prazo, o desafio será intensificar a produção pecuária para que se garanta a capacidade de atender a demanda crescente de carne bovina sem a necessidade de avançar em áreas de florestas. O desmatamento representa riscos negativos para toda a cadeia produtiva da carne bovina.

A tendência de healthification (fixados pela saúde na tradução literal) pode ter um impacto maior na demanda por carne bovina tanto no mercado interno quanto nos principais mercados de exportação nos próximos cinco anos.

DICAS DO CICARNE PARA 2022

Alguns fatores precisam ser monitorados, como o surgimento de novas variantes da COVID-19, os gargalos do transporte marítimo, a oferta global de insumos, a pauta ambiental e o comércio internacional. Para o pecuarista, é importante o controle de seus custos de produção.

É importante que o produtor entenda como se dá sua relação de custo de produção com a formação de preços na sua região, bem como o comportamento do ciclo pecuário. Assim, é possível estabelecer estratégias de curto, médio e longo prazo. Utilizar as ferramentas de gestão de risco de preços, permitir a minimização dos impactos da volatilidade de mercado. Por fim, que o produtor saiba explorar as oportunidades que o mercado apresentar. (Do Boletim CiCarne, da Embrapa)

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